A Patologização dos Comportamentos

Posted by Rossana Braghini
21 de outubro de 2017
Rossana - Psicanalise

Porque estamos discutindo o Diagnostic and Statistical Manual of Disorders?

Porque está saindo do forno a versão do DSM-V, que propõe algumas mudanças às quais temos que ficar atentos.

Por que temos que ficar atentos? Porque é um Manual da Associação Americana de Psiquiatria que não é usado somente pela mesma. Ele se estendeu para outras áreas do saber, como psicologia, tribunais, escolas, serviços sociais, ou seja, é o método mais utilizado para dizer se uma pessoa é doente ou não. Em outras palavras,  se você está enquadrado dentro da “norma” ou não.

O problema é que o dito manual foi confeccionado pela combinação do método do catálogo com o análogo, e sua busca é de uma taxonomia dos comportamentos, cuja consequência maior é que nenhum de nós, que esteja respirando, deixa de ser enquadrado em algum transtorno.

Um exemplo, que li numa das colunas de Contardo Calligaris na folha de São Paulo:

“Pelo DSM-V, você sofre de um transtorno se realiza seus desejos sexuais de duas a cinco vezes por semana”.

O DSM-5 prevê um “transtorno hipersexual”, “um dos mais sérios transtornos psiquiátricos contemporâneos”. Nele, fantasias e/ou atuações sexuais, por causa de seu simples excesso, teriam consequências adversas na vida de alguém. 

“Na opinião do psicanalista, no entanto…

Cá entre nós, tendo a pensar o oposto: se você não for ocupado por fantasias ou desejos sexuais entre 30 minutos e 2 horas a cada dia e/ou se você não realizá-los entre duas e cinco vezes por semana, você vai encontrar ao menos uma consequência adversa: sua vida sexual de casal vai apodrecer progressivamente.

E termina ele:

No caso do sexo, se você não sofre de transtorno hipersexual, não cante vitória: provavelmente, você sofre de um “transtorno de desejo sexual masculino hipoativo” (ou de seu correspondente feminino).

Se você evitou os “excessos” da hipersexualidade e não quer ser hipoativo, saiba que não há critério fixo de hipoatividade; quem julga é o clínico, “levando em conta fatores (…) como a idade e o contexto da vida da pessoa” -sem mais.

Em suma, quer saber qual seria a quantidade certa e “saudável” de sexo na sua vida? Como não é mais moda perguntar para o padre, pergunte para o psicólogo ou o psiquiatra.

Concluindo:

Se o psiquiatra ou o psicólogo sabe o que é bom para nós, algo de muito cruel está excluído: o sujeito do inconsciente  em questão. Aliás, esse foi o artifício usado durante séculos pela Igreja e pelo Estado, ocupado agora pelo prestígio da ciência, para controlar, vigiar e punir.

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