As dores da alma que repassamos ao corpo… [Entrevista fornecida ao Jornal O Nacional]

Posted by Rossana Braghini
21 de outubro de 2017
Rossana - Entrevistas

Dois fragmentos clínicos: quando eu estava fazendo minha formação em psicanálise,  atendi uma jovem durante 3 anos que vinha  3 vezes por semana.  Como analista iniciante ela me produzia muitas inquietações. Primeiro falava sem parar numa espécie de catarse com mínimas pontuações. Raro escutava verdadeiramente  alguma intervenção minha.  Ouvia, mas na pausa que eu fazia para a virgula, ela dizia , “- sim,  sim  captei”!, que era o equivalente de:   não quero me ocupar com isso agora.  Ao final dos  3 anos,  tempo em que eu havia  terminado a primeira parte da formação,   já podia convidar estes analisantes a passarem para meu consultório particular. Inicialmente eles eram atendidos na instituição. Neste momento,  ela me surpreende com a seguinte informação:- “Bem,  agora posso tentar passar um tempo sem análise. Meus ataques cessaram completamente.  O espanto para mim foi que  nenhuma espécie de ataque havia sido mencionado até então nas sessões. Solicitei o por que desta escolha dela,  uma vez que uma entrega em outros assuntos, doloridos e  íntimos havia acontecido. E ela respondeu: – no inicio da análise eu pensei que se fosse mencionar estes ataques epiléticos,  a minhas sessões deveriam girar em torno disso. E eu queria  falar de outras coisas. E essas outras coisas talvez tenham feito que nestes anos  eu não tivesse  nenhum ataque, embora tenha suspendido a medicação. Bravo! pensei eu. Isso é a essência da psicanálise. O paciente fala o que quer e a cura vem por acréscimo, como já dizia Freud.

 

Uns 10 anos depois, ainda em Porto Alegre,  uma outra jovem ao ser convidada a passar da poltrona para o  divã, comenta ao deitar.

“- Hum,  me esqueci de te falar, mas eu tenho contratura crônica nas costas que me fazem tomar antiinflamatórios como balas. Tem noites que mal consigo dormir. ” E,  disparou para assunto  da vez. Novamente o namorado que ela escolhera lhe causava sofrimento. Depois veio o problema do peso, depois do mestrado e doutorado,  etc. Uns seis meses haviam se passado, e em um determinado dia, ela me disse en passent, ao iniciar uma nova sessão enquanto se recostava no divã. -“Nunca mais tive dores nas costas que impossibilitaram dormir. Uma dorzinha aqui e outra acolá, sim.”

 

Hora de  esclarecer uma coisa: eu não penso que toda dor, mais ou menos crônica, seja seja necessariamente de fundo emocional. Podemos comprovar em outras situações como por exemplo, no exercício  de uma bailarina profissional, que provavelmente terá dores corporais frequentes e isto será o  preço da atividade escolhida. Ou naqueles que tem um trabalho que exige a repetição de um determinado movimento por longas horas;  sem falar,  em problemas de mal formações congênitas etc.

 

Voltando ao nosso tema, a conexão dores no corpo versus questões intensas e importantes não suficientemente tramitados  no psiquismo, se deu principalmente com as mulheres, que deram origem a psicanálise.  Estávamos na virada do século XIX para o século XX,  e grande parte das mulheres tinham a vida que cultura permitia: casar e se realizar principalmente na educação e cuidados com os filhos e com a casa.  Se por uma eventualidade, alguma delas resolvesse  ficar   insatisfeita com somente esta possiblidade de vida,   para espraiar sua libido, um dos caminhos mais curtos, para manter o status quo, era recalcar suas aspirações. Porém,  a medida que recalcavam seus desejos,  apareciam seus sintomas: mania de limpeza e   dores bem doloridas no corpo,  muitas vezes sem nenhuma alteração fisiológica que justificasse. Assim  foi o caso de uma das primeiras pacientes de Freud,  que fazia uma anestesia da mão até o cotovelo, em que era possível fincar um prego, sem que ela sentisse dor, mas  mostrava   sensibilidade inusitada, um milímetro acima ou abaixo deste recorte corporal. Freud entendeu  assim que a diferença  de lógica entre o corpo médico (Freud era médico),  e entre  corpo imaginário e simbólico das pacientes. E fez sua opção de intervenção.  Até Freud dar ouvidos a estas dores e ir em busca de suas causas,  estes sintomas eram  tratados como fingimentos. A cultura resistia escutar a insatisfação.  E, resistia, em parte porque o imaginário masculino temia que esta insatisfação feminina pudesse ser tomada como uma falha masculina.  Dito de outra maneira, uma mulher insatisfeita, naquela época, era quase sinônimo de um homem incompetente. Se a insatisfação feminina fosse no âmbito sexual, então nem se fala.  Este foi a primeira ligação dos sintomas físicos com os psíquicos.  Depois as coisas evoluíram para situações traumáticas traumáticas versos dores crônicas. Hoje estamos carecas de saber, porque testemunhamos em nosso próprio corpo, que  alterações físicas,  ainda pontuais, abrigam  situações intensas, sob o nome moderno de “stress”.  Interessante, porque “stress “cabe para qualquer situação  e não diz nada da singularidade da pessoa que está sofrendo. De qualquer forma, algumas dores de estômago, hipertensão,  diarréias, cansaço fisico, e irritabilidade acontecem ou se intensificam, quando as coisas se complicam em nossa cabeça sem que as consigamos formular com clareza ou achar uma saída.

 

Hoje nossa cultura, diferente do século XIX,  solicita,  permite e induz,  quase o mesmo para mulheres e homens: sucesso profissional, amoroso, corpo perfeito, saúde perfeita, juventude eterna (esta tida como um valor igual ao corpo perfeito),  sem falar numa indução ao gozo perpétuo e pleno,   que  embora a ninguém seja permitido  vivencia-lo totalmente , assim é vendido. Mas mesmo que  em um mundo com tantas  possibilidades seja  melhor que o seu contrário,  como nos primórdios da psicanálise, isso não quer dizer que vivamos sem angústia, mas sim que a  angústia hoje recai em outro ponto. Não tanto por não ter escolhas, mas por não saber diante de tanta diversidade, o que escolher. E não ter a garantia, a priori, de qual destas escolhas vai garantir meu gozo.  Exemplo: Devo poupar para quando me aposentar ou aproveitar a vida agora? Devo ser fiel a uma pessoa ou aproveitar todas oportunidades? E por ai vai…

 

Sim, sim, é uma empreitada se enfrentar este   “caos de possibilidades”,   como os riscos de erros e frustrações oriundos de nossas escolhas. Mas, podemos  transformar isto uma excelente aventura e experimentar, acompanhado de uma reflexão,  o que faz sentido em nossa caminhada  singular. Só que isto dá trabalho. E quem não quer te-lo  necessariamente tem que escolher algo, ou alguém que o dispense desta tarefa. Talvez seja essa uma das explicações porque alguns jovens estão migrando para fundamentalismo islâmico.

 

Assim sendo,   não nos surpreende,  que com as exigências tantas vezes contraditórias da cultura, somado ao trabalho que temos para dar conta da nossa forma particular de estar no mundo, que isto se transforme em um agrupamento existencial tão intenso, que termine se transfigurando  em alguma dor crônica.

 

Porém, o curioso é que a primeira vista parece que o corpo é a vítima de uma psique desbussolada, cujo efeito sintomático se transmutou em dores corporais.  Isto é a verdade,  mas  não é toa a verdade. Poderíamos ler isto no sentido inverso: Um corpo com dores crônicas, permite que muitas mentes fiquem caladas, porque o tratamento vai somente via corpo. São  analgésicos, antiinflamatórios, antidepressivos, tranqüilizantes  e outras “cositas más”.  Fico imaginando, o que desta vez, a cultura faz resistência em ouvir? A quem interessa este mutismo? E sobretudo: a quem poderia interessar uma mudança nesta posição?

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