As Falas que Dizem…

Posted by Rossana Braghini
21 de outubro de 2017
Rossana - Psicanalise

Eu nunca gostei de encontros com vários amigos ao mesmo tempo, daqueles do tipo “vamos jantar nós vinte para conversarmos”e colocarmos o papo em dia. Nas raras vezes em que compareci, voltava para casa esvaziada, cansada pelo esforço de manter uma conversa que, absolutamente, não me cativava. Ao mesmo tempo, isso me fazia questão, porque, na maioria das vezes, eu gostava das pessoas que estavam presentes e com muitas delas já havia tido conversas bem interessantes. Por interessantes não entendo necessariamente intelectuais; pode-se falar de esmalte ou da última Vogue, por exemplo. Então, comecei a perceber que para mim o atraente de uma boa “prosa” acontece em outra dimensão.

 

Mudo de cena. Recordo-me de já ter feito esse comentário sobre como gostei do site inglês “Save the Words” (http://web.archive.org/web/20110325150610/http://www.savethewords.org/). Nele foi criado um programa de adoção de palavras, ligado ao dicionário Oxford, que estavam em desuso na fala do cotidiano. O site é um amor. Quando se abre irrompe uma diversidade de palavras que começam a disputar a atenção do internauta com gritinhos: Yes, Yes me! A explicação dos autores é a seguinte:

 

Todo ano, centenas de palavras são expulsas da língua inglesa. Palavras antigas, palavras sabias, palavras trabalhadoras. Palavras que um dia levaram vidas cheia de sentido, mas hoje estão sem uso, mal amadas, rejeitadas. Hoje, 90% de tudo que escrevemos ou falamos é comunicado por 7.000 palavras. Você pode mudar isso. Ajude a salvar as palavras.

 

A questão pode ser assim colocada: por que essas sete mil palavras? E a resposta seria aparentemente simples: porque precisamente essas 7 mil palavras representam a cultura de um tempo.

 

E aí me ocorreu a resposta que eu estava procurando. O que me incomodava na dinâmica daqueles jantares era ouvir e falar o refrão do que é socialmente aceito e previsível. No entanto, esse repertório diz muito pouco da singularidade de cada um, de suas experiências, de suas alegrias ou de seus mal-estares. E é isso que torna o campo monótono, sem graça, morto.

 

Evidentemente que, mesmo se adotássemos todas as palavras do “Save the Words” para nosso uso pessoal, ainda assim, esse campo semântico não recobriria nossa singularidade. Muito menos seria apropriado dizer tudo em um contexto social. Mas isso não significa que não podemos escolher as palavras mais próximas daquilo que, verdadeiramente, pensamos e sentimos. Mas, talvez, o paradoxo se dê, porque isto só conseguimos realizar em uma atmosfera de maior intimidade.

 

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