É para dar risada?

Posted by Rossana Braghini
21 de outubro de 2017
Rossana - Psicanalise

Publicada no jornal O Nacional (Passo Fundo/RS), caderno Medicina & Saúde, deste final de semana, a coluna da psicanalista  Rossana Stella Oliva Braghini “É para dar risada?”. Leia o texto na íntegra abaixo:

É para dar risada?

Rossana Stella Oliva Braghini  – Psicanalista

 Dinheiro traz felicidade, sim. É o que aponta o resultado da pesquisa realizada no Reino Unido por intermédio do Office For National Statistics (ONS).*1

 “Uma das conclusões da pesquisa é que, quanto maior a riqueza das pessoas, maior o nível de satisfação com a vida e de felicidade pessoal, e menor é a sensação de ansiedade.”

 “A análise também mostrou que a riqueza financeira – como dinheiro no banco, ações e investimentos – tem mais impacto na felicidade do que bens como imóveis e carros”.

 Certo! Até aqui estamos todos de acordo. No entanto, meu marido que me encaminhou esta pesquisa pelo WhatsApp perguntou-me em tom de deboche?

 “Mas precisa de pesquisa para saber isto?”

 Talvez sim, para corroborar a resposta em âmbito mais universal que nós individualmente já sabemos: Em geral, o dinheiro tem um impacto na sensação de satisfação e diminui a ansiedade vivenciada nos casos de preocupações financeiras.

 E poderia ser diferente?

 Sim, poderia ser um pouco diferente.

 A história mostrou que o dinheiro, a riqueza e posse de bens, sempre foi um aspecto importante que outorgou um tipo de valor aos que possuíam ao mesmo tempo em que reduzia a preocupação com “pão de amanhã”.

 Com as necessidades básicas satisfeitas, a grande maioria das pessoas (mas não todas) teve mais possibilidades de cuidar dos aspectos da transcendência. Ou seja, de tudo aquilo que não são necessidades básicas como: comer, dormir e defecar, mas que são igualmente vitais para o ser humano como: arte, cultura e tempo para o “dolce fare niente”. Estas últimas inserções na vida do sujeito são sentidas como ganho, como possibilidade de transcender a lógica do come e dorme.  Então porque a maioria de nós não estaria mais feliz e satisfeita com “aplicações bancárias garantidas”?

 Digo a maioria, porque tem sempre aqueles que fogem a regra. Vejam o caso da ex-esposa e da filha de Aristoteles Onassis, respectivamente Athina e Christina.  Ambas as herdeiras de fortunas colossais que se suicidaram. Elas e muitos casos semelhantes aos delas, que não necessariamente terminam em suicídio, mostram que a capacidade de usufruir a vida se encontra mais além do dinheiro. Ou pelo menos “este mais além” não se detém diante do dinheiro.

 Por outro lado, um número bem menor de homens encontra na aventura da vida mesma, o seu prazer maior que suplanta a necessidade de garantias bancárias. Homens e em menor número mulheres que foram viver façanhas que lhe eram mais caras, desejos que sonharam ou ideais que acreditaram queriam, talvez, serem reconhecidos por outros feitos.

 Mas deixando de lado às exceções à regra, concluímos que todos nós gostamos de dinheiro e de contas bancárias seguras, que esta conjuntura tem impacto em nossa felicidade, não só porque reduz as preocupações com o dia de amanhã, mas porque parece que traz um retorno daquilo que nos propusemos.  Ou seja, nossa vida “vingou um sentido”.

 Agora, será que o dinheiro teria o mesmo impacto na felicidade se o valor cultural atribuído ao homem não estivesse atrelado à sua capacidade de compra? Se o valor cultural respeitado e reverenciado fosse outro, como por exemplo, a capacidade de ser educado, qual seria o impacto de ser reconhecido como educado em nossa felicidade, em nossa satisfação? Será que reconhecido como educado, não seria um impacto forte em nossa felicidade?

 O que quero sublinhar é a inversão do raciocínio. Ou seja, é discurso da cultura que diz que traço é importante para que as pessoas sejam prestigiadas e apreciadas. Nessa esteira, o “vil metal” e “contas bancárias altas” se sobressaem, porque sua relevância se encontra não somente alicerçada na lógica de não preocupação com o pão de amanhã, mas firmemente ancoradas na lógica do discurso do mercado: consumir sempre a qualquer custo, a qualquer preço e qualquer coisa.

*1) Fonte: http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/09/07/dinheiro-aumenta-a-felicidade-e-reduz-a-ansiedade-aponta-estudo-britanico.htm

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