Entrevista para o Jornal Diário da Manhã. Tema: Suicídio.

Posted by Rossana Braghini
13 de dezembro de 2017
Rossana - Entrevistas
  1. Como identificar o comportamento suicida? Geralmente, os “sintomas” passam despercebidos ou eles são aparentes?

O sonho de consumo dos profissionais da área de saúde,  bem como o dos familiares,  seria a  capacidade não só de prever um suicídio ,  mas a certeza de poder erradicar esta possibilidade.

A questão da identificação de um suicídio,  também passa pela culpa e impotência que os familiares e os profissionais sentem quando ele acontece. No caso dos familiares,  é como se amor e boa vontade dedicada a criatura não fosse capaz de fazê-la querer ficar entre nós. No caso dos profissionais, o temor de ser vistos como incompetentes ou pior, responsáveis. De qualquer maneira, não fomos bons o suficiente.

Não saber disso as vezes faz com que o tiro saia pela culatra. Posto que terapeutas podem ser apressar a fornecer para a pessoas soluções mágicas e artificiais que não terão relevância nenhuma para quem está sofrendo de excesso “ non sense “de vida. Psiquiatras podem medicar a exaustão pela mesma razão.

A medida certa é muito difícil de ser encontrada. Mas sempre é bom lembrar, que em se tratando de suicídio, impreterivelmente houve uma escolha, radical é bem verdade,  de quem o praticou. E talvez, em nenhuma situação nos caiba julgar, tentar ajudar sim.

Quanto visibilidade dos sintomas pode ser meio enganador. Tem situações que olhadas de fora, o senso comum, pode inferir que se trata de uma tentativa de suicídio.  Por exemplo,  um  adolescente que se envolve com sucessivos acidentes de carro, pode nos levar a afirmar que este jovem está querendo se matar, quando em seu imaginário (no do adolescente)  ele só está  querendo testar seus limites.  E evidente que ele pode morrer nesta brincadeira,  mas ele não quer se matar.  E é claro também, que cabe uma intervenção de limite. Por outro lado  tem pessoa, que tem um comportamento dito normalíssimo, e que    em algum momento,  pode nos surpreender com uma bala na cabeça. Assim  penso, que excetuando as psicoses declaradas, em que o  risco de suicídio é mais aparente,   o ser humano sempre foi e sempre será capaz de nos abismar.

 

2) Quais são os fatores de risco que levam uma pessoa a cometer suicídio?

Se formos falar em termos gerais, as faixas mais propensas a cometerem suicídios, são na adolescência e depois dos 40 anos.

Quanto aos fatores que levam as pessoas a cometer suicídio, podemos dizer que se trata de  um sentimento constante estar sem saída e de  que a vida não vale mais a pena ser vivida;   mas sobretudo, o mais importante é a pessoa em questão,  desacredita piamente que pode reverter a situação em favor dela. Então,  ela não encontra sentido em continuar.

3) Você acredita que a socialização, aliada à comunicação, pode fazer uma pessoa a mudar de ideia? O que pode ser feito por ela nesses momentos?

Sim,  eu acredito que esclarecer a comunidade possa ser importante. Mas o que eu acho que  imprescindível,  para uma pessoa que se encontre aterrada com a vida,  é que ela procure um psicanalista que possa ver se é possível fazer emergir recursos desejantes próprios daquela pessoa.  E depois ver se é factível auxiliá-la, através de seus desejos, a relançá-la na vida como um sujeito mais potente. Ou seja, capaz de ir atrás de seus desejos e pagando os devidos preços que os desejos necessariamente impõe.  Acho que a intervenção medicamentosa é fundamental que seja avaliada por um psiquiatra, mas que não  deve ser a única via de tratamento.

4) Se houvesse campanhas nacionais grandes, você acredita que elas diminuiriam os números de suicídios?

Como já disse na pergunta anterior, acho importante sinalizar as saídas possíveis, para quem não está vendo nenhuma à sua frente. Campanhas Nacionais sérias e inteligentes que não fosse produto comercial dos laboratórios, poderiam auxiliar, mas  parcialmente.Há ainda uma escolha que deve ser feita por quem está sofrendo- a de procurar ajuda!

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