Espelho… Espelho meu…

Posted by Rossana Braghini
21 de outubro de 2017
Rossana - Psicanalise

A busca obsessiva da felicidade pelo homem, talvez seja a maior causa de sua infelicidade. É curioso, mas talvez a maioria de nós possa perceber, pelo menos intelectualmente, em si mesmo, que teríamos desde que acordamos muitos motivos para estarmos contentes com a vida, mas tomamos estas coisas como fatos naturais. Por exemplo, acordamos com a temperatura amena de 23 graus de um dia de céu de brigadeiro e tomamos o episódio como coisa, talvez nem reparemos. Agora, basta que uma chuva surja inesperadamente para “estragar o dia”. Por que será que aquilo que é “ruim”, digamos assim, tem uma dimensão péssima e aquilo que é bom, normal?

Mas voltando a busca obsessiva pela felicidade o que menos gosto é sua impossibilidade tomada como incapacidade pessoal. Explico: é a tendência que, principalmente, nós ocidentais temos de recalcar a parte daquilo que não gostamos, fazendo de conta que existe em algum paraíso possível, somente aquilo que gostamos. E se não o conseguimos não é porque é impossível, mas é porque somos incompetentes. E como ninguém quer ser incompetente a indústria da felicidade movimenta muito dinheiro.

Vejamos alguns pontos em que a busca de uma felicidade constante é uma falácia.
1- Se o homem fosse somente feliz ele não suportaria sua existência, simplesmente porque se trataria de um excesso. Tanto é assim, que algumas pessoas buscam ativamente a insatisfação quando se consideram excessivamente satisfeitas, gozando dela.
2- Como somos sujeitos divididos entre o eu da razão e o sujeito do desejo, em muitos momentos da vida quando um pede uma coisa (o eu da razão, por exemplo) e luta arduamente por isso, o outro, no caso o sujeito do desejo, já está querendo outra. Tipo: levo cinco livros para uma viagem de 12 horas de avião. Quando chego ao aeroporto, desejo ler na viagem o outro livro que está na vitrine da livraria e por aí vai. Porque desejo é isso mesmo, sempre querendo aquilo que não temos.
3- O sofrimento, nos ensinou Freud, pode chegar de três formas sem que tenhamos controle sobre nenhuma delas:
a) De nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução, que não pode sequer dispensar o sofrimento e a angústia, como sinais de advertência;
b) Do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas;
c) De nossos relacionamentos com os outros homens.

Do nosso relacionamento com outros homens, não podemos jamais esquecer que somos homens e mulheres do narcisismo, ou seja, que gostamos de ser amados e reconhecidos pelo traço que nós temos como valor para nós mesmos e não suportamos bem quando isto não acontece. Em primeira instância machuca. O que faz a diferença é o que cada um faz com esta dor.
Um exemplo cotidiano: posto algo no Facebook, Instagram ou WhatsUp (esse algo já julgo importante, senão não postaria), no primeiro like a sensação de conforto. Sou amado e reconhecido por algo que valorizo.

Exemplos que a literatura consagrou: o mito de narciso que ficava fascinado com sua imagem no lago e o da madrasta da branca de neve, que perguntava ao espelho:
“- espelho, espelho meu há no mundo alguém mais bela do que eu?”
Lembrando que para nós mortais o espelho são os outros, e se por um lado narciso acha feio aquilo que não é espelho, por outro, os outros nunca vão nos responder a todo o momento:
– Sim és a mais bela.

 

(Texto publicado no último final de semana (15 e 16/08) pelo jornal O Nacional de Passo Fundo – RS).

Leave a Reply