Mal Estar na Cultura

Posted by Rossana Braghini
13 de dezembro de 2017
Rossana - Psicanalise

Gostaria de entrar o ano me reportando ao Globo Repórter de 06 de dezembro último, exibido pela Rede Globo. O programa mostrava como vivem as pessoas na Suécia. Muito interessante. O metrô é tão limpo quanto a casa da gente, recheado de obras de arte que ninguém destrói e todos cuidam. A educação até a faculdade é gratuita assim como o sistema de saúde. Quando uma criança nasce, ambos genitores tem  um ano e quatro meses de licença, e o preconceito de gênero (feminino/masculino) não existe, já que ambos são vistos como iguais. Questão de educação?  Não somente.  Questão de princípios e ideais que regem aquela cultura, a começar pelos seus governantes. Por isso, os suecos, assim como os brasileiros que lá residem, em sua grande maioria estão satisfeitos e confiantes. Afirmam que apesar de deixarem 30% de seu salário em impostos, observam cotidianamente que este dinheiro  é,  de fato,   revertido em beneficio do povo, em ações concretas e  não somente  em discursos. É um país que também cultiva suas tradições (não arrasa com sua memória) mas não deixa de usufruir da tecnologia de ponta.

Então a repórter acha o “furo da coisa”, porque afinal, nada é completo. E dispara a pergunta a uma maranhense que vive lá: – “E o frio”? A brasileira considera uns segundos e responde: “-Existem roupas  propícias, a gente compra e tira de letra.” Ou seja,  existe infraestrutura para suportar inclusive o frio.

Mudo de cena. Verifico que nós que moramos num clima tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, como cantava Jorge Ben, estamos trocando nossa sabida cordialidade (?) como povo, por intolerância e ódio a qualquer coisa que não seja o Eu do nosso umbigo,   independente de raça, credo e  classe social. Pensem  no trânsito em suas múltiplas cenas, nas relações de trabalho,  nas quais tantas vezes predomina o abuso de poder, quando não também nas relações amorosas. O que falta? Algo simples de falar e difícil de fazer: Consideração e respeito ao outro que não sou eu. E não falo de coisas mirabolantes. Falo do cotidiano. Escutar quando o outro fala; prestar atenção se o aluno  está fazendo os exercícios físicos corretamente para não se lesionar, já que este é seu trabalho como professor ou personal trainer;  entender que quando você chega por último na fila do elevador,  não deve ser o primeiro a entrar nele; recordar,  recordar sempre, que se você  estacionar em fila dupla para pegar o bolo na padaria,  centenas de pessoas vão ter que fazer uma manobra absurda para desviar de seu carro.   E,  genuinamente,  se importar com isto.  A lista poderia continuar.

Fico tentada a perguntar o que acontece na nossa cultura, que faz com que o sujeito cometa estas “deselegâncias“ sem se barrar,  sem se auto -impedir? E fico igualmente tentada a responder  que, independente das questões subjetivas de cada um,  ocorre  uma identificação. Explico: Já ouviram falar daquela máxima: “O pior feitor é aquele que já foi escravo?”. Pois é, pelas notícias dos últimos anos de qualquer jornal e livro medianamente sério, nós não temos sido tratados com respeito,  seja pela lei de mercado , ou seja, lucro a qualquer preço e a qualquer custo, seja por nossos governantes, que independente de partidos nos acenam que o saque ao patrimônio nacional é ininterrupto. Nos sentimos respeitados? Não dá vontade de aprontar as malinhas e pedir asilo na Suécia?

Como desfazer isto? Acho que uma saída que poderia interromper este ciclo vicioso, embora desse um pouco de trabalho, seria a gente de fato  se importar com o que fazem com a gente, não aceitar passivamente, assim como não reproduzir com nosso semelhante o que consideramos maus tratos. Porque sempre se trata de uma dialética. Não podemos dar o que não temos conosco, assim como não podemos receber o que não damos: respeito e consideração!

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