A Queda de Um Ideal Familiar e a Culpa Sobre seus Ombros…

Posted by Rossana Braghini
21 de outubro de 2017
Rossana - Comportamento

Ao longo dos tempos a família sofreu alterações fundamentais que permitiram alguns questionamentos. Neste artigo, sublinharei três pontos que talvez impossibilitem viver com mais prazer as características da “nova família” contemporânea. Para tanto, vou recorrer à classificação de Elizabeth Roudinesco*, pontuando rapidamente as mudanças dos objetivos familiares ao longo dos séculos, para além do cuidado com a prole.

A família tradicional, cuja autoridade era eminentemente patriarcal, se mirava nos valores da monarquia e portanto todas as classes sociais imitavam o comportamento da realeza. A função principal daqueles casamentos era assegurar a transmissão do patrimônio. Logo, a vida sexual e afetiva do casal não era o ponto principal. Isso era resolvido de outras maneiras, seja através de amantes ou pela abstinência e havia sempre aqueles em que o casamento era igualmente satisfatório neste âmbito. Seja como for não importavam o amor e a fidelidade conjugal. O pátrio poder era ilimitado e a mulher quase não existia na vida pública.
Aos poucos o pátrio poder foi se restringindo e a mãe e o Estado começaram a ter mais legitimidade dentro da família em relação a guarda e conduta da prole. Como consequência direta a família moderna teve início, mais precisamente no séc. XVIII e perdurou até meados do século XX. Essa sim, tal como a maioria de nós a conheceu, era pautada pelo amor romântico e requereu reciprocidade de desejos e sentimentos que deviam permanecer para sempre, ou melhor, “até que a morte separe”.

Porém, a autoridade paterna , assim como qualquer tipo de autoridade foi sendo gradativamente contestada, e a partir dos anos 60 vemos surgir o início da família contemporânea.

O tempo de união desta é variável e enfatiza a satisfação das realizações sexuais. Divórcios e novos casamentos são constantes, que tem como consequência, várias recomposições familiares.

Vale relembrar e indagar:
As configurações familiares não mudaram de um dia para o outro. Elas acompanharam, passo a passo, as transformações políticas, sociais e as novas descobertas das várias áreas do conhecimento. Ou seja: ela é, ao mesmo tempo, agente e resultante de vários fatores imbricados.

Portanto,  o primeiro ponto a indagar é: Por que então responsabilizar somente a família contemporânea pela dissolução da família moderna? E, sobretudo, por que colocar sobre os seus ombros todo peso do mal estar que paira sobre a sociedade atual? Por que acusá-la de toda a degenerescência, todos os vícios, todos os descontroles, como se todos os males pudessem advir daí ?

Segundo ponto : A família moderna (mamãe e papai sentados felizes no sofá e filhinhos alegres e “quietinhos” brincando no tapete) é carregada de um ideal sem precedentes ? Aliás, um ideal impossível de ser levado adiante, justamente porque em algum momento fracassa. E fracassa por motivos humanos, pela irrupção do sexual que volta a inquietar um dos cônjuges antes do outro, pela necessidade de reinvenção de algum dos parceiros ou mesmo porque este sonho cor-de-rosa é carregado de exigências nada cor-de-rosas…
Enfim, porque tanta idealização e saudosismo ?

Não esqueçamos o que os psicanalistas não param de relembrar. Que foi na esteira desta família (mas não só dela) que as neuroses se proliferaram e a psicanálise surgiu como possbilidade de outro destino não tão funesto para as pessoas que dela faziam parte.

Em outras palavras, que família tão boa e tão maravilhosa era esta?

Terceiro ponto que merece nossa reflexão : O problema que nasce da morte da família moderna é que os sujeitos nela envolvidos (pais e filhos), ainda acreditam nela como um ideal possível de sustentar e sentem como um fracasso pessoal quando não conseguem fazê-la dar certo. E assim, reeditam para as novas famílias o mesmo ideal da antiga. Resultado: novo fracasso. E novo fracasso, que vivido como culpa impede uma reinvenção mais arejada para outro tipo de família. Outra família, novos arranjos, novas configurações, novas verdades… e não “A Verdade”.

*Rudinesco, Elisabeth. A Familia em Desordem. Rio de Janeiro, Zahar, 2003.

Leave a Reply