Novas Configurações Familiares e Antigos Conflitos

Posted by Rossana Braghini
21 de outubro de 2017
Rossana - Comportamento

Com as novas configurações familiares, a família contemporânea vem com a reedição de antigos problemas, em relação aos quais terá oportunidade de recrudescê-los ou reajustá-los.

Se uma das dificuldades mais visíveis é quem tem autoridade legítima sobre os rebentos de um ou de outro, não menos importante é prestar atenção se os genitores estão posicionados (como pais, mães e casal) para poderem enfrentar as demandas dos filhos que certamente surgirão.

No entanto, existem dilemas que não são observáveis a olho nú. Sentimos somente pelos seus efeitos. Falo daquilo que acontece no imaginário de cada criança e que é seu drama particular, do qual ninguém escapa. Drama que, se tudo der certo, se esfumaçará no final da adolescência. Trata-se do Édipo infantil, que apesar de ser vivido somente no imaginário da criança, tem por consequência transmitir a Lei da Ética, através do interdito do incesto, e propiciar a sexuação propriamente dita. Em outras palavras: O Édipo nos ensina que não podemos ser e ter tudo na vida, que devemos ceder uma parcela de gozo para que a vida em sociedade seja possível e permite também que o gênero, feminino e masculino, se identifique com a posição sexual que lhe será mais pertinente, a qual muitas vezes não coincidirá com o seu próprio gênero. Está aí a homossexualidade que corrobora o que digo.

Porém, ledo engano tomar o Édipo como uma história de aprendizagens. O Édipo é um drama de amor e ódio, ciúmes, inveja , rivalidades, angústia, culpa e medo, vivido por uma criancinha por começar a ter sensações corporais, que deverá dar um sentido e limite. E apesar de que nenhum pai castrará seu filho, assim como nenhuma menina perderá seu valor por ser menina, eles vivem estes temores como se realidade fosse. Se você, ao acordar no meio da noite, acreditar que uma tarântula está na sua cama, o pavor é real, mesmo que em seguida você descubra que aquilo não passou de uma ilusão. Eis a força do imaginário sobre a realidade. E aqui estou falando do Édipo “normal”, sem fixações patológicas, que se desenlaça no final da adolescência e cujos pais tenham o seu próprio Édipo bem trabalhado.

Bem, mas o que importa aqui, voltando às famílias contemporâneas, é compreender que o Édipo não se desenvolve somente com os pais biológicos, mas sim com quem está na posição de… Logo, nas novas configurações familiares, os ciúmes, ódios e rivalidades podem permear as relações produzindo novos conflitos. Como por exemplo, o novo marido competindo com o filho da nova mulher, como se a criança fosse a reencarnação do irmão rival; ou a filha do pai competindo com sua nova mulher…porque afinal… perder para a mãe, já foi doloroso, mas perder novamente a condição de ser a “A Favorita”, justamente quando da separação as esperanças se refizeram, nem pensar ! Enfim, todos estes conflitos se reatualizam e podem assumir tantas formas que nem mesmo um novelista daria conta de pensar todas as nuances e possibilidades. E a experiência clínica mostra que estes conflitos nascem na esteira de explicações racionais do tipo: não simpatizo com ela porque é “uma perua fútil”, ou… esse guri é tão barulhento que não consigo tê-lo por perto…..por isso não adianta tentar combatê-los com outras racionalizações e pedagogias inúteis, se o que está alimentando os ódios e rivalidades está recalcado…está suprimido da consciência. É o bom e velho Édipo.

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