Bernardo e Isabela

Posted by Rossana Braghini
21 de outubro de 2017
Rossana - Comportamento

O assassinato de Bernardo nos lembra o de Isabela Nardoni não somente pela experiência de horror, mas também por algumas semelhanças.

Ambos, eram frutos de casamentos anteriores, sofreram na carne o ódio de suas madrastas e a omissão dos pais. Omissão esta que pode ser lida no mínimo como uma cumplicidade silenciosa.

Quando Isabela foi assassinada,  o psicanalista Contardo Calligaris, escreveu o seguinte sobre as novas configurações familiares:

“Na nova família a primeira vista, o homem convive melhor com seus enteados do que a mulher. Não é nenhum milagre do “instinto” paterno: o homem encontra uma satisfação narcisista no exercício da paternidade. Ele, aliás, curte ser e se sentir amado por suas qualidades “paternas”. Pare ele, saber ser pai de filhos e enteados faz parte de uma virilidade que ele quer que seja reconhecida e festejada pela mulher. 

A mulher, ao contrário, vive quase sempre uma rivalidade dramática com seus enteados: compete com eles como se ela fosse mais uma filha. Para a mulher, o enteado ou a enteada não usurpam o lugar dos filhos que ela trouxe de um casamento anterior, nem o lugar dos filhos que nasceram no novo casamento: eles ameaçam usurpar o próprio lugar dela.”

O alerta de Calligaris não vem na direção de não apostarmos mais em novos casamentos. Mas vem como um aviso, para estarmos cientes da intensidade dos sentimentos reprimidos que as relações conjugais convocam. E, portanto, não entrarmos nesta aventura,  idealizando que só o  amor existe  nestes vínculos. Inveja, ciúmes, raiva, ódio, são sentimentos tão mal vistos na nossa cultura, que preferimos fazer de conta, que eles não existem, porque ficamos envergonhados de senti-los, até eles reaparecerem sob uma forma péssima, que não é a forma falada, mas a forma feita, em ato.

Além destas considerações, tanto no caso de Bernardo como o de Isabela, a sensação que experimentamos é a que Freud muito bem descreveu como ”das  Unheimliche”.  Se trata de sentir uma espécie de pavor, pois na cena em que esperaríamos a transmissão  de confiança,  aconchego e segurança – cuja cena familiar é o protótipo – nos deparamos com  o exato oposto. No caso de Bernardo,  essa impressão é ainda mais sensível, se refletirmos em relação ao imaginário dos ícones tocados: pai, médico, cidade do interior, casa de classe alta, casado com uma moça bonita, jovem e calma. Ou seja,  tudo para concluirmos, que ali o “happy end “ estava garantido, não fosse subitamente, a a figura feminina da madrasta parecer ter saído dos contos mais terríveis infantis e ganhado às ruas. “das Unheimilich”:parece coisa de ficção mas é realidade.

Por fim ainda existe outras perguntas que não querem calar. E a comunidade que percebeu, por que silenciou? Medo da possível impunidade dos responsáveis? Se sim,  encontra sua base na realidade, pois existe tanta impunidade dos poderosos… Sensação de impotência para resolver os problemas? Acho também que sim, afinal nas nossas esquinas, todos os dias, tem crianças sendo mal tratadas e  aciona-se mais o facebook para o mal trato dos animais do que o maus tratos de nossas crianças. Por que será que achamos mais fácil resolver o problema de cães, gatos e cavalos? Ou será que se trata tão somente  da nossa velha defesa:  não quero ver, não quero pensar  naquilo que me incomoda?

Leave a Reply