Que mundo queremos para nossas crianças?

Posted by Rossana Braghini
13 de dezembro de 2017
Rossana - Crianças

Nas sociedades tradicionais, o que cada pessoa era, seu lugar na pólis, dependia de sua família de origem. Se fosse filho de ferreiro, seu ofício seria este, com poucas variações possíveis no métier e sem direito de ascensão. Se tivesse nascido na realeza, seu lugar na casta social seria este ad eternum, independente de ser depravado, bom ou famigerado.

As pessoas, naquela época, sabiam o que era esperado delas, e quais as sanções que lhes seriam atribuídas, caso não cumprissem com seu “destino”. No ato mesmo de seu nascimento, contraiam uma dívida simbólica tanto com os seus antepassados como para com as gerações futuras, em relação aos valores da tradição. Aqueles mesmos que eles herdaram e que agora deveriam transmitir. O lugar da criança, tal como o conhecemos hoje não existia.

A criança que Freud fez questão descrever, “his magesty the baby”,  que permanece até hoje, nasceu com o advento da modernidade e do individualismo. Ela é fruto do sonho dourado dos pais em que os filhos possam passar não só a infância, mas uma vida inteira sem que sofram os percalços comuns dos outros mortais. A esta criança não deve faltar nada.   Nasce livre de qualquer obrigação no presente e no futuro com os seus.

Os pais  acreditam que este tempo mítico, pode ter sua realidade em um lugar chamado infância,  em que  a falta de nada é possível. Prazer, segurança e felicidade são as únicas sensações que devem permear a vida da criança. Nenhum abalo é permitido. Como acreditam que este tempo possa existir de verdade, desde antes do nascimento do rebento, os pais começam a se preparar para não falharem em tal missão.  Começa a busca da escola ideal, da babá ideal, do carro ideal, da família ideal, do apartamento ideal. O problema é que quando esta experiência falha, porque ela vai falhar, os pais se perdem perguntando-se onde foi que erraram, porque o sintoma aparecerá nos filhos.

Se, como pais, acreditarmos que a infância é um tempo de ouro sem sofrimentos, ou pior, que depende de nós erradicá-lo, estaremos enganados. Acreditar nesta falsidade, só nos trará um fardo mais pesado do que podemos suportar. Evidente que não estou dizendo que não devemos procurar o melhor para nossos filhos, apenas que o ideal de plenitude não existe. E se não conseguimos dá-lo para nossos filhos, não é porque somos incapazes, mas porque é impossível. E mesmo que ele existisse-  o ideal de plenitude sem sofrimento algum-  seria um crime dá-los aos filhos, porque certamente  no mundo adulto estariam mais despreparados que amparados para enfrentar as vicissitudes da vida.

Este artigo foi publicado entre 2010 e 2013 no Jornal O Nacional, de Passo Fundo, RS.

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