Casamento, Amor e Sexo – parte 2

Posted by Rossana Braghini
21 de outubro de 2017
Rossana - Amor & Sexo

O artigo dessa semana também foi baseado em apresentação na Semana Acadêmica da Psicologia da UPF, realizada de 24 a 26 de Outubro de 2011.

Como já foi dito no artigo anterior, as formas de amar, casar e as dimensões sexuais que conseguimos usufruir, são efeitos tanto do percurso edípico de cada ser humano, como dos ideais sociais que lhe foram transmitidos, através das práticas narrativas – escritas, orais e audiovisuais – que cada época dotou de feições diferentes. Assim cada um de nós é filho de representações essenciais da geração que nos precedeu, ou seja a de nossos pais, como de nosso tempo, ao mesmo tempo que somos anunciadores das das representações que estão por vir.  É assim que nos constituímos como sujeitos.

Em relação a conjugalidade, nosso cotidiano permite diversas escolhas, como por exemplo morar ou não na mesma casa, casais heterossexuais, casais homossexuais, com filhos, sem filhos, porém são as realizações de prazer que assumem a razão para se estar junto ou não. Mas isto nem sempre foi assim.  A tríade casamento – amor – sexo no decorrer da história passou por diversas prerrogativas diferentes. Na antiga família tradicional (séc. XII ao XVIII), o que contava era assegurar a transmissão do patrimônio, a distribuição de poder e a conservação de linhagens. A sexualidade vinha na esteira da procriação e não do amor ou do prazer. Os cônjuges não esperavam que o casamento lhes trouxesse felicidade, assim como amor e o desejo não eram expectativas inerentes do laço conjugal.

A felicidade através do casamento começou a ser requisito entre o século XVIII até meados do século XX, com a família moderna. Esta sim, foi pautada pelo amor romântico e influencia até hoje nossa geração e a de nossos filhos. O que o amor romântico quer? Reciprocidade de desejos e sentimentos para sempre. Este era o imperativo absoluto que reinava e o veículo para sua realização era o casamento. Se uma pessoa não era feliz, ou tinha problemas, era porque não tinha achado a sua “cara-metade”.  Quase nunca a pessoa se responsabilizava e se implicava na sua felicidade ou infelicidade. Assistimos a ressonâncias deste comportamento até hoje. Os amigos não são certos, o cônjuge não presta, mas a pessoa “que sofre”, não questiona sua posição nesta relação: por que fica?

É claro que esta expectativa irreal do amor romântico sobre o casamento estava destinada ao fracasso. Mas além deste mito de ser feliz somente através do casamento, outros fatos históricos precipitaram a derrocada da família nuclear romântica e tornaram a passagem para os enlaces contemporâneos possíveis. São eles: duas grandes guerras mundiais, com as mulheres precisando ocupar um lugar no mercado de trabalho, a descoberta da pílula anticoncepcional, que possibilitou o exercício do sexo desvinculado da maternidade, e o efeito do movimento feminista, que lutou com unhas e dentes para que as mulheres deixassem sua posição de submissão histórica ao homem. Na trama destes fatos, os enlaces contemporâneos a partir dos anos 60 rapidamente ganharam força. Nestes, a realização sexual é o novo ideal. Novos casamentos são frequentes, implicando novas recomposições familiares. Na próxima semana falaremos do que pode atrapalhar os novos laços conjugais.

Este artigo foi publicado entre 2010 e 2013 no Jornal O Nacional, de Passo Fundo, RS.

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