Casamento, Amor e Sexo – parte 3

Posted by Rossana Braghini
13 de dezembro de 2017
Rossana - Amor & Sexo

Na semana passada falamos que a tríade amor – sexo – casamento, sofreu variações ao longo do tempo e, a cada vez, demandou comportamentos diferentes para os pares amorosos.

Não temos como saber ainda dos efeitos que a nossa própria época produzirá no amor, sexo e conjugalidade. Entretanto, percebemos sim, que as novas formações familiares estão ai, que o leque da sexualidade ampliou muito em suas opções factíveis, mas esta história ainda está se produzindo. Ainda assim, podemos estar advertidos de algumas idéias que podem nos ajudar a constituir com mais qualidade o nosso caminho amoroso.

1) Não podemos acreditar mais que o objeto do amor e do sexo possa ser o mesmo. O objeto do amor é da ordem da imagem total do semelhante, enquanto o objeto do sexo é um recorte, que nem sequer precisa ser do corpo, pode ser um sapato por exemplo, que aciona a fantasia erótica.

No ciclo do amor “realizado”, dotamos a imagem do amado de perfeições e destrezas que admiramos, talvez justamente porque seja aquilo que nos falta. E essa imagem, que eu tanto admiro, me olha com o olhar que eu quero ser olhado. Em outras palavras, essa imagem me olha com o olhar de quem vê e reconhece aquilo que eu preciso que o outro veja em mim para eu me sentir amado.

Já o objeto do sexo, é sempre um fragmento, oriundo de  qualquer pulsão parcial  (oral, anal, escópica etc..) deslocado e tramado nas suas 1001 maneiras de aparecer. Porém, como já dissemos ele é sempre um recorte e jamais se refere a pessoa como um todo. Na verdade, o corpo do amado na hora do sexo, se transforma apenas em um veículo para que  as minhas fantasias sexuais tenham vazão.

Isso é importante em mais de um sentido. Por um lado, fica claro que amor e sexo,  não são necessariamente um par ao longo de uma vida inteira. E por outro lado,  que alguns casais  podem experimentar uma maior riqueza na vida erótica a dois,  se compreenderem um pouco mais da “natureza”do amor e sexo, que afinal das contas, não tem nada de natural. Tem haver mais com os registros do simbólico, imaginário e real que nos constituem como sujeitos de uma determinada época.

2) Por isso mesmo, não podemos mais pensar que o laço com uma pessoa é uma relação a dois. Explico: em qualquer relação, temos a tendência de supor nos relacionamos diretamente com a pessoa real. Nada mais falso que isso. Nós nos relacionamos  com a interpretação que fazemos das atitudes e comportamentos da outra pessoa. E, essa interpretação é sempre mediada pela nossa fantasia. Por exemplo: imaginem um marido recém-casado que chega em casa às três da manhã, depois de algumas cervejas, com os colegas do escritório. Maria poderia pensar: “se ele realmente me amasse, não precisaria sair com colega nenhum”.   Já se Débora poderia concluir: “que bom que ele é gostado pelos colegas e se diverte com eles”.  Mas , o marido em questão do nosso exemplo fantasioso,  nem sequer queria ter saído,  apenas não conseguiu negar o convite do chefe.  O que quero destacar é que cada pessoa “compreende” o outro, a partir de  elementos de sua fantasia cuja maior parte é inconsciente.  O exemplo dado foi simplório, mas no consultório escutamos com freqüência como a dimensão fantasiosa assume proporções de verdade causando muito sofrimento para os envolvidos. Uma pequena amostra poderia ser quando Maria concluindo-se não amada, poderia se dizer: “agora ele me paga”!

Assim pensarmos  nas forças que nos subjugam desde o inconsciente também é uma forma de cuidar do amor, sexo e conjugalidade.  Essas forças podem se presentificar na vida amorosa de várias maneiras. Citarei apenas mais dois exemplos para demostrar esse ponto.

A)  O conflito entre o se quer e o que se deseja. Posso querer ser um homem que “pega todas”,  sem compromisso com ninguém e secretamente (inclusive de mim mesmo), desejar uma vida semelhante a dos homens que iam para o trabalho e voltavam para casa as sete horas para jantar com a família: “um homem de uma mulher só”. O resultado é uma vida insatisfatória para o homem em questão, já que desconhece seu desejo e  só reconhece  seu querer.  B) Outra forma de nos  des-responsabilizarmos por nosso inconsciente, é usarmos a relação como desculpa, pela nossa covardia moral de reconhecermos nossos desejos e sustentarmos nossa decisão. Imaginem uma mulher casada, mãe de dois filhos, que subitamente tem uma luz sobre seu desejo  de se aventurar em um mestrado em Paris. Existem várias formas de se pensar como poder ir para Paris mas é certo que haverá um preço. Esse lampejo de desejo,  traz angústia, medo, risco e o vislumbre de muito trabalho, caso decida-se levar ele adiante.  Melhor é ignorarmos a dimensão que ele tem, e racionalizar em cima, que assim será melhor para os filhos ou para relação.  Porém, essa dívida com o meu desejo não realizado, costuma ser cobrado do parceiro ou dos filhos com juros altíssimos. Quando nos sentirmos infelizes e completamente esvaziados, tendo muito pouco para agregar à relação que tanto queríamos preservar, podemos melhor responsabilizar o amor. Foi por sua causa ou por causa do nosso amor,  ou dos nossos filhos que eu não fiz isso, isso  e aquilo… E aí a lista é imensa.

No entanto, aqui ainda cabe uma ressalva: reconhecer o desejo não implica necessariamente em uma obrigação de sair por ai realizando. A responsabilidade  de cada um é : reconhecer com seu desejo e arcar com sua decisão, o que é bem diferente de “não querer saber de si”.

Este artigo foi publicado entre 2010 e 2013 no Jornal O Nacional, de Passo Fundo, RS.

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