Amor e Dor

Posted by Rossana Braghini
21 de outubro de 2017
Rossana - Amor & Sexo

Contardo Calligaris, psicanalista e colunista da Folha de São Paulo, foi entrevistado pela Revista Criativa online e deu a receita do amor que dura. Concordo com as afirmações dele, mas quero aproveitar uma de suas colocações e acrescentar um comentário que me parece importante e recorrente na clínica.

Calligaris afirma que em relação a sentir-se “essencial” para o amado ou amada os homens teriam mais facilidade que as mulheres. Dito de outra forma, os homens precisariam de menos confirmações de que são importantes para seu par  do que as mulheres. A origem deste descompasso seria a relação primeira de ambos gêneros com o desejo materno. Os bebês do gênero masculino  teriam completado com mais preganância o imaginário materno. Ou seja, teriam mais certeza que foram o mais perto possível aquilo  que o grande Outro primordial desejo, enquanto os bebês do genêro feminino nem tanto.

No entanto, isto não é sinônimo de que a simples existência deste ser masculino bastaria para deixar todos encantados, como querem crer alguns homens. Já na outra ponta as mulheres,  em relação a sua insegurança,  demandam excessivas garantias do quanto são amadas, deslizando com facilidade para uma dolorosa chatice ou subserviência que as faz sofrer em demasia.

Isso me fez pensar em algo que se observa com freqüência no consultório, na arte (cinema) ou na vida de relação: Falo do engano constante do que as pessoas chamam de amor. Me refiro ao narcisismo ferido. Explico: Uma relação deveria ser boa porque o eleito ou eleita nos estimula e nos preenche em pontos que para nós são importantes. Então, não seria surpresa o sofrimento quando um dos dois vai embora desta relação antes do outro. No entanto, o que surpreende,   é que quando perguntados sobre a relação pela qual dizem estar sofrendo, o que ouvimos é um amontoado de queixas sobre o quanto aquela união já não satisfazia mais nem mesmo para aquele que foi “deixado”.

Então porque esta pessoa continua sofrendo?

Concluo que em parte  a pessoa sofre  não por amor pelo par atual que se foi. Mas porque não se conforma com aquilo que foi re-vivido como rejeição. O re-vivido, refere-se às primeiras vivências em que acreditamos ser tudo para o grande Outro primordial (em geral a mãe),  e a decepção quando vemos que não somos; isto vale tanto  para homens quanto para mulheres. Se bem que como já dissemos acima, os homens, neste quesito sempre tiveram uma certa preferência. A cultura sempre deu valor a figli maschi

As meninas já vem com um déficit maior porque além de serem meninas, ou seja,  não terem preenchido os seus Outros primordiais, imaginam que suas mães também não lhes deram tudo que elas precisavam para garantir-lhes a estada neste mundo mais segura. Esta é a razão de infindáveis queixas em relação as mães. Sempre faltou alguma coisa, que elas vida afora reivindicam dos outros, aliás isto é muito da neurose feminina.

Mas voltando ao tema, o que a pessoa quer e chama de amor, quando o outro vai embora, é simplesmente o desejo de ver seu orgulho reparado, aquele que foi ofendido, e que em sua ilusão, é somente o ofensor que pode reparar.

Leia a entrevista de Calligaris em: http://revistacriativa.globo.com/Revista/Criativa/0,,EMI240780-17354,00-CONTARDO+CALLIGARIS+COLOCA+O+DIA+DOS+NAMORADOS+E+O+AMOR+NO+DIVA.html

Este artigo foi publicado entre 2010 e 2013 no Jornal O Nacional, de Passo Fundo, RS.

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