Tomorrowland

Posted by Rossana Braghini
21 de outubro de 2017
Rossana - Psicanalise

Coluna da psicanalista Rossana Stella Oliva Braghini publicada no jornal O Nacional deste final de semana (04 e 05/07).

 

Tomorrowland

Por um acaso, numa pequena nota de alguma revista ou jornal, li sobre o filme Tomorrowland – Um Lugar Onde Nada é Impossível (2015), dirigido por Brad Bird. O que me chamou atenção na nota foi que um mundo futuro seria retratado como um bom lugar para se viver. Decidi imediatamente que iria assistir. Isso porque os filmes de ficção científica como, por exemplo, Blade Runner, (1982) ou Batman Returns (1992), só para citar alguns, apresentam o amanhã como um lugar escuro, decadente, agregado de disparidade social sem precedentes e sobretudo sem lei. Até aqui nada estranho , uma vez que a maioria de nós não é analfabeta nem surda e os meios de comunicação como jornais, documentários, livros e revistas, cansam de nos informar sobre o desequilíbrio do nosso ecossistema, das condições insalubres que vivem povos inteiros e a falta de medidas eficazes visíveis que possam nos dar esperanças que a curto ou médio prazo isto poderia mudar.

Então, para que assistir a um filme que desenha um futuro feliz?
A primeira resposta poderia ser para passar algumas horas agradáveis sem que a dura realidade fosse esfregada nosso nariz. A segunda e a mais verdadeira é o temor que tenho das identificações no seu papel maléfico. Explico: reparem, por exemplo, quando uma pessoa, chamemos de Maria, se queixa para alguém, de uma tristeza em alguns momentos do dia sem explicação. E suponham que outro alguém, chamado Mário, tenha autoridade junto a Maria e diz que ela é bipolar, independente de Mário ser um especialista ou não. Provavelmente daí em diante, Maria passe a se perceber e intitular SÓ assim, como bipolar. Como se o restante dela, que poderia ser uma escritora, mãe de três filhos, boa pessoa, submergisse nesse traço, – bipolar.

Ok, mas o que tem isso haver com um filme que retratasse um futuro sombrio?
Preocupa-me o fato que muitas pessoas, à semelhança do traço bipolar, se identifiquem com essa visão soturna e anulem outras possibilidades. Como consequência devastadora teria a leitura de um só cenário péssimo e parcial, sem agilizar os recursos possíveis para mudar esta situação. E muito pior que isto, seria a possibilidade de “trabalhar” ainda que inconscientemente para concretizar aquela visão.

Quero deixar claro, que não sou contra de forma alguma a denúncia que nos faz prestar atenção nos “sinais vermelhos” que o nosso cotidiano nos envia, mas que isto só sirva para nos lembrar de que temos um trabalho a fazer naquele traço.

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