Viajar

Posted by Rossana Braghini
13 de dezembro de 2017
Rossana - Psicanalise

Escutei, com alguma frequência, das pessoas que gostam de viajar frases com as quais todos parecem concordar: “é bom sair, mas melhor ainda voltar”, ou, ao contrário disso, “é bom sair e um inferno voltar”, ou, então, “preciso me renovar, preciso viajar”.

 

Recentemente, viajei e prestei atenção numa sensação ótima que tive ao retornar. Algo tinha mudado dentro de mim, acrescentado mesmo. E fui buscar o que era.

 

Revistei lugares na Itália e conheci novos na França. Grande parte dessa experiência eu saberia detalhar o que havia acrescentado. Por exemplo, em Veneza, diferentemente da primeira vez em que lá estive aos 14 anos, não me deslumbrei tanto, mas, em compensação, consegui captar muito mais o “espírito” veneziano, que é muito diferente do fiorentino ou do milanês. Como meu pai veio de Milão aos 25 anos, terminei por dar um sentido novo a minha própria história. E sublinharia, aqui, “dar um sentido novo”.

 

Foram vários momentos assim, tanto nas vivências inusitadas, como naquelas que nos conduzem diretamente as nossas próprias lembranças infantis, tal qual as madeleines de Proust. Mas é sobre a conclusão dessa experiência que eu quero falar.

 

1) Tendemos viajar como nós somos. Ou buscamos preferencialmente o mesmo, as experiências conhecidas, ou, ao contrário, buscamos mais experiências novas. Mas, queiramos ou não, com mais facilidade que do na vida cotidiana, em algum momento nos depararemos com o novo, que irá remexer nossa identidade amalgamada, e alguma coisa vai se deslocar dentro de nós mesmos.

 

2) Depois da ocorrência desse deslocamento, podemos falar dessa experiência, ler essa experiência em nós mesmos, mas não tudo. Tem algo residual a qualquer experiência significativa que permanece secreto para nós mesmos, mas continua a lançar seus efeitos. É o que chamamos, segundo a minha leitura, de “mistério da vida”.

 

3) Apesar de, por nossa exclusiva escolha, vivermos mais na mesmice do que no inédito, o que buscamos ao viajar é uma parcela do novo. Digo uma parcela porque “tudo novo”, além de impossível, seria intolerável.

 

Mas o que é o novo? O novo para cada um de nós é aquilo que ainda não sabíamos. Simples assim. E acreditem, nada mais prazeroso do que descobrir o novo em nós mesmos ou em alguma experiência compartilhada, como sabem bem os que gostam de uma boa literatura, um bom filme.

 

Eu acho que a experiência de viajar é única, mas ela compartilha a questão do “re-novar” com outras experiências, tais como:

 

a) mergulhar numa paixão onde o outro me revela aos poucos seus mistérios e parte de mim mesma;

b) a experiência de escrever, a la Michel Foucault, em que ele colocava que não se arriscaria a escrever se soubesse de antemão o que iria dizer, ou seja, que a experiência da escrita seria uma novidade inclusive para ele;

c) ou com a experiência de falar, quando já se está em processo de análise, em que sabemos somente por onde vamos começar, mas não sabemos aonde vamos chegar, ou seja, o que vamos escutar de nós mesmos.

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